Tão distantes almejamos o horizonte. Longe alojamos nossos planos. Esquecemos por um momento o agora. Mas que diferença faz se as juras eram eternas? Do nosso laço por algum descuido alguém pisou na ponta e desfez os traços. Sem nenhuma afirmação estamos presos a nossas dúvidas. Se eu sabia quem era, hoje só vejo o naufrago, e na proa continuo esperando o fundo do oceano me estender os braços. Tão firme foi o chão em que pisei, traiçoeiro caminho que em um piscar de olho fez do duro concreto, um piso movediço. A certeza furtiva, palavra indefinida, classificada entre mitos e lendas. E tentei refazer minha vida, buscar alternativas, mas só me sobrou os rascunhos, porque as folhas principais já eram seus capítulos. Vejo nas árvores o seu abraço, sinto no vento o seu perfume, nas crianças sua inocência e na solidão o seu amor queimando para manter a lareira. E esse poço no peito me mostra como sua vida completava o meu vazio e me faz perguntar: Como eu vivia antes de viver consigo? Eu virei as costas, você pegou seu barco e zarpou. Talvez neste meio tempo percebestes o tamanho do seu erro, deu ouvido aos seus medos, contemplou os seus receios e como prevenção resolveu partir, porque seus problemas já eram demais para ainda ter que suportar os meus. Te vi ao longe, poderia ter acenado e lhe apresentado motivos para ficar, mas no fundo eu sabia que tinha problemas demais e que você merecia sossego. Então sentei no cais e quando o sol engoliu seu barco me coloquei a chorar. Mas o que são algumas gotas para o mar, ainda mais que já são salgadas e ele nem se dará ao trabalho de salgar? Fui ínfimo até nesta hora. E me contento com notícias suas por outros meios. E sei que devo caminhar, então caminharei, mas quando eu desistir de manter as aparências, quando cansar de ser covarde, vou lhe procurar e ofegante de cansaço lhe direi: “Você esqueceu alguma coisa antes de partir, de avisar meu coração que ele não deveria ir”.
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