sábado, 28 de novembro de 2015

Patamares

Seu calcanhar cansado, do áspero chão rude, faz do caminho distante demais apesar da curta distância. O muro sólido, impenetrável de seu coração solitário, é incompreensível para quem não vê a solidão estampada, ou sofrimento passado, quem dirá os obstáculos. Em ver, seu sonho abandonado, aflige o peito empático dos simpatizantes com sua caminhada. E seu rosto amargo de um choro adocicado, que carrega em sua queda todo o brilho de seus olhos. Como achar um Norte, sem nem ao menos o horizonte é visível? Quais são os patamares? Se de tão sonhada se tornou utópica, me responda: Onde se esconde a felicidade? Consolidar algo que não é definido, beira ao precipício mental. E autojulgar-se proprietário do inexistente é o flagelo humano ao poço profundo. Os dedos que constantemente tocam a face, delineando os olhos, voltam encharcados. O medo do futuro, o mal dos ansiosos, das bruxas videntes que apresentam em suas mãos apenas escolhas terríveis. Como ser forte? Mais fácil desistir, fantasiar, deixar que o mundo guie.  Guardar seus sonhos no bolso daquela calça de inverno, que assim como a estação, só desperta uma vez ao ano. Passageiro. O restante do tempo deixá-lo em uma gaveta escura e umedecida, mas acompanhado, dos ácarosTudo bem, conforta saber que algo está mudando, um ponteiro no relógio, um dígito no calendário. Desejar que o tempo passe, nada mais óbvio para provar a infelicidade. Quem é feliz deseja o contrário.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Planejar

Hoje acordei com intenso desejo de ter um balão. Ah que sonho lindo, podia sentir o vento soprando, a vista deslumbrante, sensação de liberdade. Não existia antes do balão, eu já o tinha, não havia meios, apenas os fins.
Mas que coisa, a realidade é algo doido, me puxou pelo pé de um sonho flutuante.
Acordado e parando para pensar, o gás está caro.  Como mantê-lo no alto? O ar que passa no cano de água é cobrado, a conta está alta, sendo assim, suponho que se o utilizar, também será cobrado. Tudo bem, pode ser que haja mesmo um preço para ser feliz, se sentir realizado, mesmo parecendo caro. Meu balão está quase lá, não deixo o desânimo me abalar. 

Agora preciso de alimentos, mas que absurdo. Quando foi que se alimentar ficou difícil? Quando algo essencial à nossa existência passou a ser algo tão comerciável? Inacreditável! Se paga pela comida ou pelos agrotóxicos? Levo o que preciso, apenas o meu corpo, que vez ou outra fica dolorido, ataca minha alergia, resfria. Parece que não sou o vigor máximo da saúde. A vertigem antes mesmo de sair do chão. O que está acontecendo? Era tão simples no sonho.
Acho que meu balão partiu sem mim enquanto a realidade me distraia. E cá entre nós, quantos balões não partem?

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Simples Presença


E de tão só, torna-se vazia a companhia presente, mas quase inexistente. Lança um solo de monólogo um corpo apenas visível. Se estar só é ruim, quem dirá em companhia. 
Não se pode ter tudo, mas ver tudo que tem ofuscando a Luz no fim do túnel, deverás é uma tortura severa demais até para os mais insensíveis. Todo amor contido em um peito apertado pronto para explodir, embarreirado pela falta de tempo; o cansaço acumulado. 
É como uma estante repleta dos melhores livros a serem escritos, entretanto empoeirados, parados, nem sequer iniciados. O que seria um best seller se torna um sonho utópico de um amor unilateral inexplorado. 
Difícil é ter olhos para enxergar e não se entregar a boa conduta da recompensa futura, porque os laços estão formados e alguém há de inaugurar o que tem por trás deles. 
Sincera solidão paciente, que mantém viva seu sonho de liberdade, sonho de desalojar um corpo que sofre com sua presença. Falta o herói necessário. 
Adormeceu e contigo levou o entusiasmo, a chama poética tão exaltada pelos poetas. 
Deixe estar, que vá até onde der, porque a maré sempre leva a algum lugar, não faz diferença se é boa ou ruim, mas que os braços continuem a lutar, já que, se o corpo boiar, não se tem mais vida.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Eu conheci a vida

Eu conheci a vida. De perto. Do nada, estava bem ali na minha frente. Para os céticos, amor a primeira vista é algo sem fundamentos, mas eu garanto: Foi amor a primeira vista. Ah, as relações amorosas, beiram o clichê, geralmente conturbadas, turbulentas, insanas, mas ao mesmo tempo, deliciosas. Ela linda, reluzente, emanava algo que não tinha como resistir, atraente, envolvente, convincente... Sua voz persistia em me chamar, como quem clama por minha presença. Eu tolo, insistia em recusar seus convites, fiz como quem não ouvia. De certa forma, tanta beleza causa espanto. Seu sorriso se assemelha ao sol, transcendia a alma, nasce e morre nos mesmos lábios. Tocava uma música o tempo todo, a vida sempre nos chama para dançar, mas quase sempre era difícil de ouvir, muitas vezes o som se dispersa com o som das turbinas dos aviões, com o motor superpotente, com a rotina perturbante. Poucos os que a tiram pra dançar. A luz que seus olhos emitiam era de tamanha esperança transcrita em algo palpável, era como a luz no fim do túnel, a vontade de seguir em frente. Como não se apaixonar? Mas é fato, não há nada mais bipolar do que a vida. Hora nos encanta, outrora nos espanca, nos joga ao chão, fecha os olhos como se nos tirasse a esperança. E vai-se embora, como se nós não fossemos nada, some, nos deixa presos a vida que não queremos. Depois de um tempo volta, com aquele sorriso lindo, como se nada tivesse acontecido, com aquela voz doce e mãos suaves que beiram a perfeição do convencimento. Aproxima-se e diz: “Ainda podemos ser amigos?”. Como negar um pedido deste, então eu respondo: “Sim, amigos”. Mas logo em seguida ela rouba um beijo, abraça forte e o peito começa a queimar aquela paixão descontrolada, que inexplicavelmente ultrapassava as barreiras do rancor. Como negar a vida? Porque sem ela não posso estar vivo, estou preso ao que sou, ao controle que fazem de mim, sem ela conheço uma outra parte, conheço a solidão incessante, a depressão constante e nos dias mais frios eu clamo pela vida. Quando ela volta, mesmo com receios eu a espero de braços abertos, louco para abraçá-la, senti-lá, vivê-lá, segurar forte para que ela não se vá mais embora, fazer todos os seus desejos, atender todos os seus fetiches. Porque a vida quer que eu a siga e quer porque ela sabe como ser feliz. Quando ela insiste em brincar comigo, eu corro atrás dela, insaciavelmente, incansavelmente, descontroladamente até perder o fôlego e ela ao se distanciar sorri como se aquilo fosse a maior peça de teatro do mundo. Afinal, viver é realmente uma peça, é loucura; é ser louco. Nos momentos de paz eu acaricio seu rosto brando e aquela sensação de estar completo me invade, ela me abraça e sua música fica mais forte. Quem me vê me julga insano, porque estou na beira da estrada vendo o sol se pôr no horário comercial, mas a vida quer você nos horários mais difíceis, quer que você abra mão dos compromissos, porque se tem algo que ela odeia são as agendas, as regras. Mas eu estou ali, com a vida, o requisito mais importante para se estar vivo. Porque estar presente é algo distinto, agora viver, saber lidar com as intempéries da vida não é para todos, porque desistir é sempre o caminho mais fácil, mas a vida gosta de ser desejada, gosta de correr e ver atrás alguém buscando por ela. Quando você a alcança, vale a pena, ela te faz abandonar as futilidades, olhar para dentro de si, respirar aliviado. Ela é perfeita e nossa imperfeição é que faz com que seja a relação certa, cada vez que ela nos derruba soltando gargalhadas, nós nos levantamos e ganhamos mais um aprendizado. Para nós as lágrimas que são de tristeza aos olhos da vida é parte do processo. Ela só observa, te espera. Eu conheci a vida e agora não sei viver sem ela. A vida é um trem, com destino não se sabe bem para onde, as pessoas tentaram nomear, mas ela sorri ironicamente ao ver o homem tentando achar respostas para tudo, tentando definir algo que, no fundo não tem definição alguma. Este trem é breve, rápido, mas intenso, constante. A diferença é que alguns nunca saem da estação, outros já o adentram. A vida é uma viagem. E nós? Nós somos passageiros; somos passagem.