terça-feira, 22 de outubro de 2013

Quando cresci

Quando cresci, deixei de ser o que o mundo reservou para mim, puro. Larguei no meio do caminho a bagagem infantil para abraçar a dor de ser maduro. Poucos entendem que o maduro beira a podridão. Aprendi a interpretar e vivenciar angústia. Responsabilizei-me a ser responsável. Ouvi constantemente a voz na minha cabeça “Você precisa fazer alguma coisa da vida” E pensava comigo, “mas eu já faço, eu sou feliz”. Abandonei o sou feliz para me enquadrar na vida que muitos julgam “adulta”. Parece ironia ou cinismo, ser adulto é como afundar-se na areia movediça, você sabe que está padecendo, mas ainda sustenta aquele mundo para não ser alvo de criticas. Vez o outra bate uma saudade sem base de fundamentos de quando eu era só mais um pivete. Sabe? Daquelas saudades de correr descalço no campo de futebol, voltar todo sujo no fim da tarde. Fazer desenhos tão mal feitos e depois ir correndo apresentar aos pais, que sempre diziam que estavam perfeitos. Aquela falta que faz acordar e ir pra escola, rever os amigos, bater figurinha, provocar as meninas. Esfolar a tampa do dedão. Puta que pariu, faz falta demais. Perdoe o palavrão, mas é que nenhuma palavra da norma culta seria o suficiente para expressar o quanto foi perfeita aquela época. E quer saber? Se um dia desses eu encontrasse um gênio da lâmpada, pediria sem pestanejar para que pudesse reviver pelo menos cinco minutos daqueles anos de ouro. Memorar aqueles sorrisos sinceros. Brigar e após 5 minutos trocar gentilezas. Se desentender com seus irmãos, mas nunca deixar que ninguém o maltratasse. Se me criticassem por não pedir riqueza, sorriria ironicamente por entender que eles ainda são ingênuos demais para entender o verdadeiro valor das coisas. Saudade violenta de ser dono do mundo e não seu escravo.
Hoje carrego o ar monótono da rotina, trabalhar, fazer o que não gosto porque o dinheiro exige que você dedique sua vida a ele. É quase que um “Não faça planos, você é pobre, ganhe dinheiro antes vendendo sua vida”. Tem horas que odeio o dinheiro, por alguns instantes o culpo por nos fazer amadurecer. Maldita mania do ser humano, procurar culpados para aliviar nem que seja pelo menos um pouco o erro grotesco que cometemos acerca da vida. É mais fácil para se conformar depois.
Passou rápido demais, talvez pelo meu esforço descomunal para crescer logo, tomar cerveja, sair de casa, andar na montanha-russa. Desejei crescer para ser uma criança independente, inocente demais, nem ao menos sabia que essa opção não estava em pauta nas reuniões da vida. Hoje vejo a longa estrada a percorrer, quando mais jovem eu pintava a estrada, formulava-a da forma que bem entendia. Eu era médico, bombeiro, polícia, astronauta. Até super-herói. O tempo não perdoa, tentamos acompanhar correndo, mas quando se cansa ele se aproveita.
As vezes olho minha mãe sentada no sofá, abatida após uma manhã de serviço, logo após ouço o carrinho de sorvete passando na rua, solto um riso de canto, não posso pedir dois reais a ela para comprar um, pelo menos não com aquele ar inocente de uma criança totalmente dependente da finança dos pais. Imagino que sigo o mesmo caminho que eles, deixando minha vida passar, esperando o trem do amanhã. Morro de medo de que meus filhos sejam que nem eu, que vendam seus sonhos por uma entrada nesse mundo perverso que só lhe paga com solidão.
Ê infância, como eu gostaria de te encontrar por ai, te devo tantos abraços, hoje sinto que você me dizia o quanto faria falta na minha vida. Devo-te a gratidão e de lhe dizer quanta nostalgia você me causou. Se eu sorri tanto na sua época, hoje choro por ter passado dela. Hoje penso que talvez eu tenha crescido para entender o valor da perda, agora eu entendo, e imploro para que possa voltar no tempo.

Quando cresci conheci o sofrimento. Só depois de crescer conheci as coisas fétidas do mundo. A infância era a diversão, depois são só julgamentos, no banco dos réus estamos nós, como juiz nossa consciência. Dói aceitar que passou, dói mais ainda saber que não voltará, mas quem teve agradeça, porque infância é só uma e é eterna até o fim da vida.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Cemitério da saudade

Hoje fui ao cemitério. O cemitério das saudades. Sua entrada era chamativa, enfeitada com rosas, sorrisos e lágrimas. Seu subtítulo dizia que lá a nostalgia era garantida. O problema é que nós nunca sabemos quando iremos adentrar, quando se da conta já se está na entrada, sem caminho de volta. Um local sem indicações, cheio de armadilhas, qualquer hora pode cair em uma lembrança assustadora. Tudo, completamente tudo o que você viveu está ali enterrado, a música que toca ao fundo na verdade se mistura com as outras milhões que lhe trazem lembranças, melodias memoráveis e que chegam fundo nos sentimentos. Um típico cenário de garganta embargada. Os papéis ao chão são as cartas, os recados, fotografias. O vento frio mistura os perfumes e a cachoeira são os choros passados. As árvores são as raízes de onde seu coração já foi plantado. Quando menos se espera está com uma pá na mão desenterrando uma saudade, que sobe subitamente, te invade o peito, embarga a garganta e encharca os olhos. Deixando você disperso do mundo, trafegando pelas memórias. Anestesia-o com a nostalgia; faz-te odiar o presente. Os risos que soam de repente ao fundo das músicas, a sensação de um abraço apertado, são os fantasmas do necrotério. Tudo está ali. O primeiro "Eu te amo". O abraço materno. Os fins de semanas com os amigos. As perdas irreparáveis. As separações. As expectativas e os sonhos mais nobres. Sim, existe a saudade de sonhar, o mundo é um homicida dos sonhos. A saudade exorbitante da infância onde se encontra um dos poucos túmulos floridos. Quase tudo perfeito, mas suas dores são as mais penetrantes, poucos se dispõem a abri-las. Nossas vidas abastecem aquele cemitério. É possível morrer em vida ou morrer nas saudades. É inevitável. Todos têm histórias enterradas, que quando vem a tona desanda a desalinhar a sincronia dos sorrisos. Algumas vezes o desespero toma conta e a vontade resgatar e reviver aqueles momentos nos tira da linha da razão e faz com que os sentimentos tomem providência, ocasionando a procura de quem esteve conosco naqueles momentos. Somos filhos das lembranças, superprotegidos pela nossa mãe, a saudade. Tudo aquilo que deu a entender que se foi para os confins do esquecimento, a saudade guardou com o maior carinho.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Suicídio



A vista daqui de cima é diferente. Pela primeira vez tudo aparenta ser pequeno perto de você. Diferente de quando se está no solo com a dor interiorizada, essa dor que ridiculariza o ser, nos inferiorizando diante dos outros. A mesma dor que te levou a cobertura de onde está. Talvez seja por isso que muitos desistem do suicídio quando chegam aqui em cima, porque pela primeira vez na vida se sentem grande diante de algo. Sentar na beira e imaginar que o último caminho que fará será de lá de cima até o chão. Não dando tempo nem ao menos para memorar as melhores recordações. Todos que estão lá embaixo tratando a situação como espetáculo. Não se importam se vais pular ou não, só os interessa ver o desfecho, são ansiosos de plantão ansiando conhecer o final da trama. Não lhes interessa saber se você têm sonhos, filhos. Como foi seu dia ou se foi alguma vez feliz. Alguns cochicham entre si que quem comete tal ato é egoísta, que não pensa no sofrimento dos mais próximos, que gosta do drama por carência. Julgam ser saber nem o mínimo da dor que o esfaqueia todos os dias, que lhe traja com os mais míseros sentimentos. Julgam sem ao menos saber que o chão já semeou milhões de suas lágrimas. Tal dor que não seria exagero compará-la a mitologia de Prometeu. Estás no topo de um arranha céu esperando que seja puxado pelas mãos, ideia essa alimentada pela sua fé. Pensas em se livrar da vida por almejar um lugar sem tristeza; um paraíso de dádivas. Isento de dor. Cansou de se deitar em um bloco de concreto todos os dias e recostar a cabeça em um travesseiro de gelo, colecionando noites de insônia. Exausto de tomar café da manhã todos os dias com a depressão. Fartou-se da incompreensão de sua dor diante dos olhos alheios; de ter que demonstrar força todos os dias quando o que mais deseja é desabar em lágrimas, derramar-se nas mágoas. Entristece só de lembrar que entre todas as pessoas do mundo, nem sequer uma enxergou seu mundo desfacelando-se em chamas no fundo dos seus olhos, que as lágrimas nem de longe foram páreas para controlar o incêndio e partiram em retirada para longe das pálpebras. Esta lá em cima como ultima saída e por amar tanto a vida quer lhe poupar do sofrimento. Pode ser a última decisão ou mais uma entre as outras milhões. O recomeço ou a continuação do fim. Não vem ao caso o final, porque suicídio de verdade é quando se deixa de estar vivo mesmo estando presente na vida.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O que faço da saudade. (Pensamento solto)

Eu sou só mais um remoendo as saudades, transformando-as em cafeína, ingerindo e me mantendo alerta e a elas mais ainda.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Por que eu? (Esperança)

Eu não procuro ninguém. Estou sempre na minha. Não é por falta de querer, mas pelo fato de eu não me achar boa companhia. Aprendi a gostar da solidão e de suas controvérsias. Então eu pergunto: Porque me escolheu? Logo eu. Por que eu? Eu que sou mórbido as regalias da vida. Que em uma conversa de horas desfiro apenas algumas palavras. Que sou tão refratário ao senso social, que só exploro sorrisos tímidos na minha face envergonhada. Eu que desisti da ideia de “felizes para sempre” e me adequei ao "tente ser feliz sozinho". Eu que vivo sendo condenado pela minha própria mente fantasiosa, que sempre me faz pensar que as pessoas me apontam o dedo; que não sei ser feliz. Que vivo desesperado para chegar a minha casa e me trancar no quarto, como se todos fossem fantasmas me assombrando durante o período diurno. Mas você... Você não se importou com isso. Avistou-me de longe, disperso nos pensamentos, na falha tentativa de contar as inúmeras moedas para comprar algo que saciasse a minha sede. Eu ali de cabeça baixa sem atratividade alguma, simplesmente normal, nada que me oferece destaque em meio a multidão. Você não se importou. Sentou ao meu lado e eu já me contorcendo de timidez só de pensar que talvez fosse falar comigo; e falou. Acomodou-se chegando mais perto, deu um sorriso singelo. Eu já suando frio me conformava em dizer "não, ela não veio até aqui por mim". E disse um "oi". Levantei a cabeça lentamente e me direcionei ao fundo dos seus olhos como quem implorava para que ela enxergasse que eu era uma “fria”. Queria que ela percebe-se que eu era um poço de mistério, com uma história conturbada, conjugue da solidão. Percebeu, mas ainda assim me dedicou um sorriso. Cheguei a pensar que era um anjo, alguém para me livrar dessa masmorra infindável de tristeza; para me tirar o peso das costas, guiar-me na minha própria escuridão. Tocou a minha mão sem me cobrar palavras, não se esforçou em conhecer meu vocabulário. Me fez companhia como se soubesse que tudo que eu precisava na vida era alguém que dedicasse seu tempo comigo. Sem perguntas, só pela companhia. Foi precisa ao explorar a necessidade que eu continha em ter alguém para sorrir do meu silêncio, segurar na minha mão. Tocou com tanta profundidade minha alma que por um segundo de descuido a emoção se alastrou em meus sentimentos e uma lágrima solitária saiu desenhando os contornos do meu rosto. Arrisquei até um sorriso disfarçado. Alguém que me entendia sem eu precisar dizer nem sequer uma palavra, aliviou meu coração. Secou minha lágrima e recostou sobre meus ombros como quem dizia "chore, eu espero você chorar". Completou o álbum da minha vida na página da compreensão. E eu que sempre corria para casa não percebi a hora passar, tinha alguém para me proteger dos fantasmas, alguém que sustentou a vela no fim do túnel para que eu continuasse a caminhar, que me livrou da utopia de eterna tristeza; que chutou as pedras no meio do caminho junto a mim e me levantou quando pela falta de força tropecei na tentativa de chutá-las. Hoje entendo na mais simples equação que sempre existe um caminho, algo para nos motivar, desde pessoas até objetivos. Eu encontrei algo que me deu um sentido para me levantar e apostar em tudo aquilo que sonhei um dia. Passei a sair do cenário e entrei em cena na minha própria vida, deixei de esperar a hora dos aplausos e comecei a me fazer merecedor deles. A companheira que me fez companhia quando estive na pior das situações pode estar presente na vida de qualquer um. A esperança que sabe quem precisa dela e quando você menos imagina ela senta-se ao seu lado em um lugar qualquer e te oferece o colo que você clamava o tempo todo em grande parte da sua vida. E hoje quando a súbita vontade de viver lhe aparecer atônita se preparando para dar a largada em sua vida, não ache que é mera coincidência, entenda que mais uma vez a esperança repousa sem seus braços para que faça usufruto dela.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Pensamento solto



Tem horas em que sinto a enorme necessidade de que minhas palavras me sufoquem, e consequentemente me ceifem a vida, porque em alguns casos a morte seria melhor que pronunciá-las. (Dario Junior)

domingo, 6 de outubro de 2013

Do fim inevitável

E a felicidade dos brindes de cada ano aos meus olhos é tristeza. Vejo como a passagem do tempo, a morte das células, as rugas no rosto. Acabo sentindo a partida dos meus entes queridos. Vejo na parede um relógio que avança rápido e seu pêndulo oscila entre vida e morte, e o tic-tac torturante mostra a realidade que o tempo leva tudo, leva todos. Mesmo cônscio de que nada é eterno, certas verdades nunca caem no costume. Saber que a vida levará aqueles a quem ela própria trouxe ao mundo. É como a dor antecipada, o presságio do que inevitavelmente está por vir, a sensação de que um dia todos aqueles que preencheram seus álbuns de fotos só estarão presentes nas fotografias, talvez no fundo do peito onde o único resgate são as lembranças. (Dario Junior)