segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Decepção

Amargo gosto da derrota que sempre foi iminente, porém ocultada pela controversa fé de que tudo poderia ser diferente. Um tropeço no avesso. A luz que bate de frente, o fato consumado há muito tempo. Inevitável. Não se passa por este inconstruto mundo alicerçado em cima de esperanças vãs, sem uma desilusão. Fato qual comprovado pelo desgaste natural das pessoas que acabam por não confiar mais uns nos outros neste perfil contemporâneo. Isso não é uma definição de decepção. E o sentimento que apunhalou a pele, sendo dissertado. A grande questão é: sempre vêm de quem menos se espera. Quando se esta no chão, em uma afinidade imensa com a desolação e avista alguém que julga ter certeza de que te estenderá a mão, todavia, nada além de um olhar distraído, a leve contorcida dos lábios o sinal de quem não pode fazer nada, o dar de ombros inconsolável. Alguém em que se fazia morada no ombro, para que em qualquer momento pudesse recostar-se e aliviar a pressão exercida pelos sentimentos; alguém que te viu no chão e ali deixou que ficasse. Isso é o que de fato dói. Dói na alma. Porque qualquer forma de abandono é a deixa para se deixar aos retalhos. Posso estar decepcionado e por esta razão compartilho de uma visão egoísta, mas no momento o que sou reflete nas linhas do texto. Decepcionar-se é perder o foco, perder o mundo e abrigar uma ilha. Se ver sozinho. Condenar a todos. Carregar nas costas o abandono. Não se acostuma nunca, apesar da trivialidade. Tudo decepciona. Ou quem sabe nós é que decepcionamos o tempo todo e não aceitamos a realidade que buscamos da decepção que afronta nossa porta? Decepção mata sim, mas também ensina a viver. És tão furtiva a decepção, rouba as estrelas que habitam a esperança no olhar de cada individuo. É a melhor funcionaria na construção da redoma de gelo que cobre os sentimentos mais nobres, aprisionando-os. No fundo, somos os únicos culpados, por esta tola mania de cultivar expectativas. Depositamos demais naquilo que com certa dose de obviedade mostrava-se um investimento sem retorno.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Síntese do tempo



Aguardo parado, ignorando que o tempo é dependente dos movimentos. Assim em minha ilusão posso estabelecer que parado não envelheço. Mas no pior dos pensamentos, também não vivo. Ah se de meus olhos o mundo compartilhasse a visão, morreriam nas horas que perderam em vão, nos lamentos do passado já bem estruturados. Cada aniversário alheio sendo comemorado é uma tortura para o meu senso critico e eu para me adequar à normalidade digo: “Parabéns, felicidades”, quando me corroí por dentro a vontade de dizer: “Sinto muito, eu compreendo”. Óbvio, todos nos partiremos um dia, mas não por este motivo deveríamos comemorar este fato. Se por um segundo todos entendessem o poder do agora, não planejariam o futuro, não criaram planos baseados em castelos de areia que qualquer maré alta pode derrubar. Se neste mesmo tempo todos entendessem que, o passado não passa de projeção mental no agora e o futuro é um pensamento no agora, o “Agora” seria o novo deus moderno. O tempo se define somente no momento vivido, no presente, ele não existe ontem. Se sonho hoje, hoje mesmo inicio minha caminhada, porque outrora posso desistir por uma intempérie da alma, por um descuido da vontade. O tempo tão plano e horizontal, presente sempre que pode, ausente na dor, quando tudo que se vive é ela. O mesmo que pode ser companheiro e ao mesmo tempo inimigo; que caminha ao seu lado ou te faz correr até perder o fôlego. Quem sabe um dia não se consegue enganar o tempo, viver pelo prazer de não se ter compromissos. Retroceder os relógio sempre para meio-dia e ter a vida inteira a mesa farta e o sorriso da metade da vida. Vida qual resumida no clichê das 24 horas. Veja bem, acordei atrasado, e quem me disse foi um simples relógio, que me desperta do sono profundo, mas duvido de seu caráter de sua integridade, porque ele nunca dispara o despertador quando me atraso para vida. E olha que estou muito atrasado. O tempo e suas teorias, a teoria e o tempo, tempo que teoricamente não se manipula; que na prática a mente ignora. Passa o ano rápido, os rojões nos alertam. Comemoração lúdica da esperança renovada. São festas e rezas, frustrações e planos, mais um ano, qualquer como outro qualquer. Muda o fato de que a regeneração das células anda cada vez mais lenta. A gravidade exerce mais influência sobre o corpo e o rosto não se realça. A saúde aos poucos se esvaece. A força tira férias. Os cabelos adormecem. O tempo está voando. E os rojões o que comemoram mesmo?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Anistia



Dor impregnada na alma, pela falta daquilo que nunca se teve, pela vontade de abraçar as fantasias da mente, subsidiadas pela imensa vontade de se ter aquilo que todos tinham. Determinadas coisas fazem uma exorbitante falta. Exatamente quando enxergamos em alguém a mesma dor afunilada, quando um só tiro acerta dois corpos que compartilham das mesmas lágrimas. É impossível ser forte quando a alma chora. Um abraço despretensioso, muitas vezes derrubam as barreiras da força e abrange desabafos. A pergunta “tudo bem?” inocente, provoca grandes histórias. Nunca se está bem. Existe sempre a montanha mórbida da dor amarrada às costas. Escravizados por aquilo que faltou em nossas vidas, buscamos a anistia no ombro daqueles que nos oferecem compreensão e companhia.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Palavras Inertes



A poesia que escrevo em linhas soltas, é inerente ao que sou. Pode ser subjetiva a quem vê, mas a mim só demonstra uma face, dor. Porque simplificando a questão, só encontro o ponto cego do mundo, o alojamento da minha inspiração quando me acolho à dor. A minha interpretação parcial que busca o lado triste das ocasiões me faz retratar o lado que todos se esforçam para esconder, o lado fraco, oculto dos sorrisos forçados. Adiante a passos lúcidos a verdade de que somos provenientes de desilusões, assim expressada ao ato do nascimento, um choro, o desespero de chegar ao mundo. Como o presságio da chegada das diversas lágrimas cultivadas, pausadas entre um sorriso e outro, no caminho da vida em busca da felicidade em coisas sórdidas. O pior peso de deixar de ser um espírito livre e viver a experiência de sentir os desejos físicos. Quem conhece a combinação de insônia e madrugada sabe como os pensamentos são os melhores métodos de tortura.
Caminhamos em um deserto de emoções perdidas, em busca de algo que nem mesmo as miragens proporcionam. E o coração das pessoas é um local triste, quase nunca adequado para se fazer morada. Talvez por este fato o amor esteja exonerado do cargo de salvador do mundo, da união das pessoas, porque relaxou e deixou que a tristeza como um fungo incontrolável se proliferasse no interior dos seus portadores.
E a esperança? Será só mais uma palavra fabulosa expressada pelo desespero? Tal desespero de acreditar que podemos nos livrar dessa masmorra, uma válvula de escape para aliviar o peso do mundo. Vez ou outra hei de confessar que recorro a ela, sozinho seria difícil suportar uma realidade tão impiedosa, que nos joga no campo lógico de que nossa vida com o perdão da palavra é, um roteiro de planos frustrados. Ao menos se pode sonhar, acreditar em futuros melhores, brincar com as variáveis, eliminar as adversidades, sorrir pelas boas possibilidades.
Perdão por parecer negativo, queria mostrar outro lado. Mas que lado posso mostrar se o poço tem lados iguais? Ainda há tempo, falhei quando fui imaturo em achar que é tarde demais e esperar a luz no fim do túnel. Podemos nos levantar. Nas interpretações irrelevantes de um triste sonhador não se leva em conta a infelicidade depositada nas linhas. Tome os conselhos como opostos e busque; busque - mesmo que insistam para que desista – o sol por trás da lua que realça a noite.
E um dia quando deixar este mundo, estas palavras ainda estarão aqui, são inertes. E quem seguir o conselho pegará das palavras aqui depositadas o melhor que se pode tirar delas, o fio de esperança esvaecida, mas presente a todo o momento. Porque quem sofre só busca uma saída, e quem dita palavras de dor só torce para que cheguem e o convençam ao contrário. Que mostre um caminho longe da infelicidade rotineira; que enfim diga “existe uma escada em todo poço escuro”.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Tempos difíceis

Tempos difíceis. De encontros inesperados. De partidas destinadas. Tempos de momentos revividos e ávida esperança, que como chama de um palito de fósforo, se apaga com o vento. Estou aqui sem resposta. Porque não posso achá-las já que ainda sou uma incógnita. Em um labirinto sem saída desenhado pelos traços destinados de uma história caótica, de terror interno, de frio intenso. Um avaliador nato e pródigo julgador de todos os detalhes dos momentos presenciados em minha vida. Talvez por essa razão carrego essa dor interiorizada, porque ao invés da criança que tudo perdoa eu escolhi tudo questionar, e como uma criança incompreendida acabei sem respostas. Hoje amargo das piores lembranças e muito de mim é derivado dos momentos passados. E o que aparentas por fora é só a máscara multifacetada inibidora da dor e adaptável às circunstâncias, com sorrisos sem esforços, descoloridos, sem vida própria, nenhuma semelhança com o interior. Não que eu queira estatizar o sofrimento, todos compartilhamos de feridas. Algo que nos traumatiza e é parte da formação do ser que somos. Longe de minha pessoa julgar a história de quem quer que seja. Mas posso com clareza dizer que todos usam da mesma máscara. Um mundo que nos limitou a demonstrarmos apenas o lado forte, simplesmente por uma cultura da boa imagem, que formou pessoas mais fechadas e com sofrimentos acumulados. Pior, que os apresentaram as mãos no bolso ao invés dos braços entrelaçados; do abraço sincero; do “eu te entendo”. O sistema que te fez esconder o que és de fato em busca de algo que nem se sabe se quer de fato. Eu sou assim, parte disso. Deixei que fosse embora quem almejava estar ao meu lado, que me retribuía da melhor forma possível. Deixei que fosse por esse meu egoísmo de não compartilhar meu mundo. Das sementes que plantei, colho a solidão como os frutos da minha safra. Por minha própria culpa. Chega de se acovardar depositando em outro alguém algo que só de mim se deriva a parcela. Ao pensar na possibilidade esvaecida, dos sorrisos que nunca aconteceram, nos planos desfeitos, agora só um futuro indefinido perto daquilo que parecia tão certo. Uma hora o corpo fica exaurido de tanta falsidade consigo próprio; de expor na face um sorriso largo e na solidão da noite derramar-se em dor e encharcar os travesseiros que ao mesmo tempo abafam os gritos. Viver é um desespero. É estar no limite, é fingir, um grande teatro. Teatro que quando as cortinas se fecham é que a peça realmente acontece, quando não se tem aplausos. Acumulam-se demasiadas tristezas no percurso da vida, quanto as alegrias são simples detalhes de bolso, pouco pesam se comparadas às falhas ou os erros. O arrependimento, os lamentos, é tudo uma conta pendurada que exige ser revisada no momento da partida. Tudo passará. E, apesar dos pesares, sempre estamos bem na medida do possível.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Tarde demais

Tarde demais para repensar. Recomeçar. Reconciliar. É tarde, frase típica dos incertos. De quem não sabe se salta do muro. O problema é que de um lado tem um cachorro feroz e do outro um poço profundo. Algumas vezes é compreensível se manter no meio do muro. Ainda sim é tarde, para tomar decisões precavidas, para remediar. Tarde para ser jovem eternamente. É tarde porque eu acho que é tarde. Acho isso porque ainda estou em cima do muro, fiquei tanto tempo aqui que se formou o poço e a casa foi construída e como consequência, colocaram um cachorro para fazer a segurança. Não notei o tempo passando. Não notei tantas coisas, fui refratário ao que me diziam, ignorei os conselhos. É tarde, formei um casulo, mas nunca ouve metamorfose. Talvez porque a solidão do local me proporcionava um bem estar que somente eu entendia. Aquela questão de me distanciar do mundo, da sentir raiva, medo, empatia pelas pessoas. Querer ser sozinho, condenar a sociedade, não me enquadrar aos seus padrões. O medo constante de me tornar mais um uniformizado, com rotina fixa, padronizado ao sistema sujo que deseja fazer de você uma máquina, te limitando o pensamento. Proporcionando luxo em troca de silêncio. É tarde para amar, principalmente após um amor machucado, com memórias lindas, mas desfecho inexplicável. É tarde para entender o porquê deu errado. Alguns momentos com o cantar dos pássaros bate o isolamento, o vazio, o típico vazio existencial, oriundo de perguntas simples, mas sem respostas plausíveis. O que estamos fazendo aqui? Só então se percebe que é tarde; tarde para abraçar a esperança, que a falta de costume ou a criação prévia não nos permite demonstrar afeto. Querer dizer o quanto ama alguém, mas não se tem coragem, a falta de exemplos durante a vida nos limita ao lixo silencioso que somos. Simples gestos que nosso corpo o induz ao processo, mas nossa mente bloqueia os movimentos. O quanto já não foi perdido por isso? É tarde para correr atrás desses prejuízos. Olhar no relógio e os ponteiros marcam meio-dia, uma hora e assim sucessivamente, é angustiante. Parece mais fácil deixar para depois, ter certeza nos sonhos que amanhã tudo será realizado. Ou simplesmente só sonhar, essa é a meta dos mais fracos. Por outro lado se todos os sonhos se realizassem, qual seria a nossa desculpa para os lamentos? De que valeria a luta diária? Pensando bem, acho que sonhar é só para preencher as páginas do fracasso, ou uma meta utópica para que caminhemos a vida toda atrás de algo, só para no fim dizer “eu nunca desisti dos meus sonhos”. É tarde para derramar essa lágrima, já passou. Tarde para brincar de desenhar. Tarde para sorrir com alguém. Para mim tudo é tarde, já que estou limitado ao muro. E as questões que chegam a mim eu as enquadro no meio termo. Em meio aos devaneios acredito que talvez compense contrair raiva derivada da mordida do cachorro, eu seria apenas mais um louco no mundo vasto deles. Ou então adentrar ao poço, não estranharia a solidão. Mas não passam de devaneios, ainda estou no muro. Que muro é esse que não divide somente as casas? Que me divide à dúvida? É tarde para voltar atrás. Tarde para voltar atrás das minhas mágoas; para perdoar. Tarde para recolher os frutos das árvores plantadas. Para terminar a obra de arte. Tarde para bater minha mão no poste e gritar meu nome, salvei o mundo. É tarde porque sempre é tarde, tendo em vista que somos limitados ao tempo e o mesmo nunca para de correr.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Lúdico

Não lhe toca a alma o peso de ser que és? Não te aflige ao pensar nas injustiças da vida? Porque eu quando estou só me perturbo com meus pensamentos. Do tipo fim do mundo ou realidade paralela. Outrora penso que o mundo não faz sentido, mas ainda sim sou hipócrita o suficiente para entrar em melancolia por pensar que minha vida anda sem rumo. Sentar em frente a oceano e entender que existe o infinito, porque mesmo limitado ninguém o compreende por inteiro. Têm dias em que o mar está agitado, em fúria, como quem deseja expulsar os turistas, dizendo estar cansado de viver para agradar os outros, implorando por silêncio, para que suas ondas possam se quebrar em paz. O vazio inexplicável. Neste mundo com possibilidades infindáveis de entretenimento. Como ainda pode haver tanto sofrimento? Eis uma pergunta que jamais acharei resposta, porque não é uma pergunta retórica, já que sofro do mal depressivo. Não há resposta, não uma convincente o suficiente, cada um agoniza por suas próprias carências. E o vento suave que toca a minha pele, também carrega a areia que incomoda meus olhos, tal vento que com a opção de estar no alto, insiste em conhecer a recepção humana. Que no longo caminho, quando quase se pensa na desistência, ele chega aos cantos nos livrando um pouco do calor insuportável, renovando nem que seja em valor baixo a nossa vontade de seguir em frente. Às vezes a natureza conspira. Subir ao cume da montanha e gritar por “deus”, pensando bem, não era lá que ele deveria estar, não quando lá embaixo o mundo sofre horrores. Já não sei em que acreditar. Por minhas crenças exageradas eu conheço a dor, pelas apostas incompreensíveis eu conheço a derrota, pela espera de um trem que já passou, eu aprendi ter paciência. Quantos erros pela vida, um caminho repleto de amores partido, me aplicando a certeza de que nasci para ficar sozinho. Só assim deixarei de ser jardineiro, jardineiro da dor, que planta tristezas e despedidas, que corta no caule o coração das pessoas, que poda os afetos e que como um mal profissional, não da conta das pragas. Então eu morro, morro todos os dias, na esperança de nascer de novo, e mais uma vez renasço morto. Meu egoísmo, que nunca se vai, não me permite dizer as pessoas o que sinto, mesmo com a dor delas diante de meus olhos, então eu luto comigo por dentro e nada sai além do silêncio, o transtorno de não ser quem eu gostaria de ser, o psicólogo do mundo. Um dia disposto eu corro atrás do sol antes que ele se poste, mesmo que a sede invada meus instintos, eu não paro, para no fim do dia descobrir que estava em um tapete, sendo puxado o tempo todo pela oposição, nunca sai do lugar, aliás, eu nunca saio. Sou indeciso. Você se pergunta: Chorei ou sorri mais na vida? Se sorriu, por trás não existia uma lágrima? Não quero ser o aplicador de uma prova, longe de mim julgar alguém, já que nem meu próprio relatório eu entreguei ainda. Mas quem de fato já foi feliz na integra? Sem brechas para nenhuma tristeza, somente felicidades e alegrias, que depois dos sorrisos não sobrasse o vazio e sim a chegada de uma nova remessa de felicidade? Eu não experimentei isso ainda. Tenho caráter lúdico, sonhador solitário, almejando do mundo respostas, mesmo sabendo que elas não virão. Com analogias baratas e perguntas sem fundamentos. Sou parte do vazio que me completa, sou morador do eco dos meus gritos, o sal da água que meus olhos lançam, sou deveras de fato, parte indispensável da dor que me forma.

sábado, 2 de novembro de 2013

Preciso dizer



Sente-se aqui e chore comigo pela última vez. Depois me deixe sozinho, como tem que ser, porque além das lágrimas compartilhadas eu preciso sofrer sozinho, morrer aos poucos por dentro e aceitar a minha condição solitária.
Está frio, mas estava frio o tempo todo, só agora eu percebi como é vazio o espaço em que só eu ocupo. Como eu pude me arriscar a pensar que tinha uma vida, quando tudo que eu tinha era você? A falta exorbitante que seu perfume faz; seu sorriso atrelado ao meu. Então eu percebi que neste tempo todo eu nunca estive bem. Porque o sorriso que meu rosto expunha de nada valia com as correntes das lembranças enroscadas aos meus pés.
Quando a noite chega, o escuro ressalta a saudade que se oculta durante o dia. Enfim, nunca antes o cheiro do alvejante me incomodou tanto, já havia me acostumado com seu perfume adormecido em minhas roupas. Para ser sincero, cansei das minhas mentiras desferidas a mim mesmo, de tropeçar vez ou outra nas minhas ilusões dando de cara com a realidade; em pensar que tudo vai ficar bem. Penso em abandonar a desolação que me joga aos cantos e encharca os meus olhos, penso em parar de me antecipar ao tempo brincando com as variáveis e me ludibriando com finais felizes. Esqueço um pouco de mim em determinadas circunstâncias, preciso deixar de ser eu para que em algum momento eu seja algo melhor do que sou; fantasiar-me de herói da vida, guerreiro, vencedor das dificuldades. Mentira! Está tudo debaixo do tapete, - Não um tapete Persa - um tapete qualquer imundo, onde as linhas do meu destino formam a estampa.
Que irônico, eu aqui me lamentado enquanto podia estar ai correndo te almejando à volta. Dizendo que nunca esqueci. Pensando bem, eu sou covarde, prefiro resguardar a dor ao passar vexame, me saciar com a possibilidade negativa, justificando assim a minha falta de iniciativa. Quando acabou não foi colocado um ponto final, foram adicionadas as reticências, me atormentado já que estava passível de interpretações. Já não reconheço o horizonte em que o sol se escondia, já não ando bem pelos caminhos da minha vida. Perdi minha bússola. Ando sem rumo.
Não vou prolongar o assunto, só eu sei as feridas que não cicatrizam; o coração que não para de bater, – e por sinal bate sempre na mesma tecla – só eu sei como são longos os meus dias, e se um dia, quem sabe, eu te encontrar por aí, vou sorrir para que não sobre mais nenhuma duvida entre os nossos rumores.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Quando cresci

Quando cresci, deixei de ser o que o mundo reservou para mim, puro. Larguei no meio do caminho a bagagem infantil para abraçar a dor de ser maduro. Poucos entendem que o maduro beira a podridão. Aprendi a interpretar e vivenciar angústia. Responsabilizei-me a ser responsável. Ouvi constantemente a voz na minha cabeça “Você precisa fazer alguma coisa da vida” E pensava comigo, “mas eu já faço, eu sou feliz”. Abandonei o sou feliz para me enquadrar na vida que muitos julgam “adulta”. Parece ironia ou cinismo, ser adulto é como afundar-se na areia movediça, você sabe que está padecendo, mas ainda sustenta aquele mundo para não ser alvo de criticas. Vez o outra bate uma saudade sem base de fundamentos de quando eu era só mais um pivete. Sabe? Daquelas saudades de correr descalço no campo de futebol, voltar todo sujo no fim da tarde. Fazer desenhos tão mal feitos e depois ir correndo apresentar aos pais, que sempre diziam que estavam perfeitos. Aquela falta que faz acordar e ir pra escola, rever os amigos, bater figurinha, provocar as meninas. Esfolar a tampa do dedão. Puta que pariu, faz falta demais. Perdoe o palavrão, mas é que nenhuma palavra da norma culta seria o suficiente para expressar o quanto foi perfeita aquela época. E quer saber? Se um dia desses eu encontrasse um gênio da lâmpada, pediria sem pestanejar para que pudesse reviver pelo menos cinco minutos daqueles anos de ouro. Memorar aqueles sorrisos sinceros. Brigar e após 5 minutos trocar gentilezas. Se desentender com seus irmãos, mas nunca deixar que ninguém o maltratasse. Se me criticassem por não pedir riqueza, sorriria ironicamente por entender que eles ainda são ingênuos demais para entender o verdadeiro valor das coisas. Saudade violenta de ser dono do mundo e não seu escravo.
Hoje carrego o ar monótono da rotina, trabalhar, fazer o que não gosto porque o dinheiro exige que você dedique sua vida a ele. É quase que um “Não faça planos, você é pobre, ganhe dinheiro antes vendendo sua vida”. Tem horas que odeio o dinheiro, por alguns instantes o culpo por nos fazer amadurecer. Maldita mania do ser humano, procurar culpados para aliviar nem que seja pelo menos um pouco o erro grotesco que cometemos acerca da vida. É mais fácil para se conformar depois.
Passou rápido demais, talvez pelo meu esforço descomunal para crescer logo, tomar cerveja, sair de casa, andar na montanha-russa. Desejei crescer para ser uma criança independente, inocente demais, nem ao menos sabia que essa opção não estava em pauta nas reuniões da vida. Hoje vejo a longa estrada a percorrer, quando mais jovem eu pintava a estrada, formulava-a da forma que bem entendia. Eu era médico, bombeiro, polícia, astronauta. Até super-herói. O tempo não perdoa, tentamos acompanhar correndo, mas quando se cansa ele se aproveita.
As vezes olho minha mãe sentada no sofá, abatida após uma manhã de serviço, logo após ouço o carrinho de sorvete passando na rua, solto um riso de canto, não posso pedir dois reais a ela para comprar um, pelo menos não com aquele ar inocente de uma criança totalmente dependente da finança dos pais. Imagino que sigo o mesmo caminho que eles, deixando minha vida passar, esperando o trem do amanhã. Morro de medo de que meus filhos sejam que nem eu, que vendam seus sonhos por uma entrada nesse mundo perverso que só lhe paga com solidão.
Ê infância, como eu gostaria de te encontrar por ai, te devo tantos abraços, hoje sinto que você me dizia o quanto faria falta na minha vida. Devo-te a gratidão e de lhe dizer quanta nostalgia você me causou. Se eu sorri tanto na sua época, hoje choro por ter passado dela. Hoje penso que talvez eu tenha crescido para entender o valor da perda, agora eu entendo, e imploro para que possa voltar no tempo.

Quando cresci conheci o sofrimento. Só depois de crescer conheci as coisas fétidas do mundo. A infância era a diversão, depois são só julgamentos, no banco dos réus estamos nós, como juiz nossa consciência. Dói aceitar que passou, dói mais ainda saber que não voltará, mas quem teve agradeça, porque infância é só uma e é eterna até o fim da vida.