quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Ressoar de uma dor ecoante

Teu ombro, meu apoio tão sólido que de solitude deixou saudades. Está de volta velha companheira, fantasma querida. Recoste-se novamente ao meu lado e ceda novamente seus braços. Abrace-me e extraia de mim estás lágrimas que, por tanto tempo foram aprisionadas aos sorrisos da cegueira vulnerável. Sorria doce e vente frio como de costume, traga-me a inspiração que só você conhece. Perdoe-me, por deixá-la de uma forma tão rude, ter fugido com a felicidade sem olhar para trás. Olha que ironia, você já me esperava à frente. Sem rancor, de braços abertos. Eu te espero, sempre, como alguém conformado que reconhece em ti o repouso de meu corpo. Carregada de desespero me aperta o peito, engasga a garganta com uma dose de arrependimento. Meu pranto rotineiro rega seu jardim de lírios. Escuto seu riso, que riso histérico; que solidão amarga, o vazio que invade o peito após a euforia repentina é o futuro que atormenta. Ecoa. De volta o seu canto sedutor a me ludibriar com sua melancolia, que se fosse definida por algo palpável seria um espelho, porque ao vê-la, enxergo a minha. Apesar dos pesares, sempre esteve comigo, não sempre pelos mesmos motivos, mas sempre presente. E algumas das linhas mais belas saíram de suas mãos. Há quem te admire nos outros, eu te admiro em mim, porque cada escudo que protege meu corpo foi colocada através dos seus ensinamentos. Quando fores embora, quando resolver me deixar, deixe uma carta de despedida e me espere no portão de saída para que eu possa te abraçar e quando finalmente se for, no fundo do peito, mesmo que ele esteja sem o seu vazio, sentirei saudades. Mesmo que você parta quando a terra estiver cobrindo os meus olhos. Uma hora eu sei que você vai. Mas por enquanto ressoe, ecoe, já não luto mais, aprendi a sorrir contigo e dizer que está tudo bem, afinal certas coisas são nossas intimidades. Se alguém além de mim conhece o meu interior é você, que ajudou a construí-lo, não sozinha, mas em grande parte dos processos. Esta imagem forte de jovialidade e imponência é facilmente desfeita ao sentir seu toque, quem domava os leões passa a ser amedrontado pelos pássaros. Você companheira, que quando me aperta as mãos me estremece o corpo e quando faz silêncio me aguça o medo. Dor, de canto doce, de rosto belo e solidão incomparável, desmancha esta face temerosa me dê um beijo e faça da batida do meu coração seu eco eterno.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Cigarro

Às vezes eu me pergunto: O que as pessoas pensam enquanto fumam um cigarro? Por que fumam cigarros? Algo que de diversas formas carrega anúncios de contra-indicação, a morte anunciada. Observo atento enquanto o papel se desfaz em cinzas, as bochechas inflam e superficialmente não entendo a lógica deste movimento. Vejo o corpo inerte, parado inalando as toxinas, enquanto apreciam distraidamente o horizonte. Milhões de coisas na cabeça. O olhar distante é o detalhe significativo. Neste momento está o sentido do fumo, o precioso momento da revisão da própria vida, a calma da nicotina em unção com o tempo livre. Pouco tempo por sinal, mas certas coisas são resumidas em minutos. Uma linha uniforme, que a embalagem afirma conter centenas de produtos químicos, com fotos assustadoras, mas que por outro lado contém grandes reflexões e em dados momentos conversas agradáveis com quem compartilha do mesmo vício. O desespero do pulmão em se livrar da apneia e as partículas que ficam impregnadas escurecendo a pele que antes refletia o ar puro. Cigarros. Droga lícita, pode causar câncer. Mas afinal o que não daria câncer nestes tempos modernos? A humanidade defasada de empatia causa câncer. E o tempo de exílio, aquele em qual o vício comanda o tempo e exige alguns momentos para que se dedique a ele, em troca proporciona uma conversa franca com a vida. Vejo, da varanda, o fumódromo ocupado pelo corpo, mas não pela alma, cada tragada e vai se esgotando a ampulheta. Talvez seja a fuga, o momento de dispersão dos compromissos de trabalho, uma desculpa convincente para se afastar das responsabilidades. Ou o desespero de mandar para dentro algo que preencha o vazio, mesmo que faça mal, sentir-se acompanhado por alguma coisa, fugir por um segundo da solidão deste mundo povoado de corpos sem vida. Quando o vento leva a fumaça para longe, leva um pouco do que já foi seu, algo que já adentrou seu corpo e diferente de muitos sentiu o seu interior, então o pensamento vai junto com a fumaça que se dissipa ao longo do caminho. Enquanto o cigarro vai desaparecendo nas pontas dos dedos. Mais uma tragada. Cof! Cof! Está ficando difícil fumar com tanta naturalidade, o corpo já não tem a mesma resistência, a garganta começa a reagir com violência. A vida está passando, mas o maço está sempre lá, no bolso, vez ou outro se esquece o isqueiro, olha para o lado e pergunta: “Tem fogo?”. Pronto, cigarro aceso, muita das vezes este é o único diálogo. Novamente o horizonte, e quando esta quase se convencendo de que lá é o lugar para se estar, o filtro demonstra que acabou o tempo, não há mais nada o que pensar. A cura para a ansiedade, raiva, estresse ou só uma diversão de adolescente. Quem sabe só uma obsolescência de um mercado bilionário. Quando recosta-se na parede e lentamente o corpo desliza para que possa se acomodar, ao fim senta-se no chão e quando bate a solidão, a angústia repentina, depressão, a fumaça toma conta do ambiente. A abstinência do corpo, o desejo insano de se tragar, lutar com o próprio desejo, chorar o desespero, o corpo exigindo uma conversa franca consigo mesmo. E as virtudes tão sólidas que nem de perto é o foco, de longe julgam um fumante pelo que ele expressa por fora. E perco horas imaginando o motivo da primeira tragada da vida. Qual foi a revolta? Quem convenceu a aderir esta idéia? Talvez, quem sabe, um ombro amigo nesta hora fosse a melhor droga. E os pés ansiosos, martelando o chão lentamente vão se cessando enquanto o cigarro vai esgotando-se, o respirar aliviado e o filtro – que não tem mais utilidade – é arremessado. Acabou mais um momento de reflexão e o tempo de leitura deste texto foi o suficiente para exaurir mais um cigarro.

sábado, 19 de julho de 2014

Desequlíbrio

Tão sóbrio. Vendo a insanidade de um mundo rápido demais. Desesperado por um instante de conversa. De compartilhamento mútuo; de ao menos uma vez sorrir sem olhar ao relógio. A vontade da paz de deitar em minha cova sem se preocupar com a pá de terra. E eu lírico, na tentativa de ser quem não sou. Preso dentro de mim ao indulto da indiferença. Existe uma perspectiva tão óbvia, como uma voz interior que soa ao consentimento de todos. Ver no olhar do próximo a fenda no peito que se assemelha ao meu, mas conseguir apenas sorrir sem jeito, tentar toda vez desferir conselhos que de tamanho clichê tornam-se terapia dos iludidos, ao invés de somente falar sobre o assunto, se necessário chorar e simplesmente sair agradecido.

Mas dói tocar na ferida, preferivelmente e indiscutivelmente cultivar a solidão dos sentimentos passou a ser mais adequado a este mundo. E em quem construir a morada do confiança, de bases sólidas e concretas em que a reciprocidade seja a espontaneidade do momento? Estou ocupado demais com o que mesmo? Talvez com uma tela que irradia uma luz artificial mantida pela minha escravidão ao medo. Esta vida de fim de semana, sem tempo para conquistar o mundo; tomar um rumo; sair sem rumo. Esta ideia insana ao extremo de citar liberdade, acredito veementemente em alienação quando a ouço.

E o arrepio instantâneo de pensar em ensinar a um filho de que ele tem opções predeterminadas neste mundo, que ser herói é besteira, amadurecer é necessário. Mas maturidade é ser o quê? Uma feição triste de uma rotina farta de coisas simples em uma vida barata? Uma casa um carro, uma família e um cachorro? Estabilidade financeira? Profissão indesejada? Descontentamento, mas uma aparência forte? Solidão, mas sorrisos falsos? Angústia, mas festividades? Um aluguel atrasado, horas extra? Para no fim morrer sedentário com um terreno? Se prestar a uma vida que não merecemos para sustentar os filhos? De fato, realmente, é isso que os ensinaremos?



Somos espelho do quê? Buscando a que? Queria ter ouvido “eu acredito nos seus sonhos, siga seu caminho”. E antes de dizer que eu falharia, pergunto: Eu não teria nada, então perderia o quê? 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Morte (Parte 1)

Inevitável. Eu que em cima de preceitos formados por paradigmas, cresci em uma redoma de ignorância, enxergando aquilo que talvez seja um espetáculo, como o fim da trilha. Baseado em mentiras onde o justo perfeito teria a chance de assegurar-se no paraíso. Hipocrisia. Doutrinado e adestrado a ouvir a aceitar de bom grado tudo que lhe sugeriram ser, a troco de minha obediência. Fui calado quando a dúvida apresentou-se. És somente a funcionária do mundo. A faxineira da dor. Morte, você que de tamanha elegância foste confundida com um mafioso. A libertação de um mundo que a carne exacerbou-se ao espírito, onde escolher não é uma questão de escolha. E quando chegas e o solo é violentamente regado com lágrimas, você consente, mas sabe que no fundo todos compartilharão de sua presença. Morte, chamado da natureza. E o temor que foi criado em cima de você, fez do mundo o abrigo do medo, fez de nós escravos da rotina, viver por estar vivo. E a difamação da sua imagem acabou com a aventura, internou os loucos nos escritórios, matou o sorriso espontâneo. Quem diz ser livre, agride a própria face. Liberdade já se finou há tempos. Isto que nos diferencia dos animais, porque eles não esperam pela morte, eles anseiam pela vida; não elaboram planos, apenas amam. Porque todas nossas estruturas são baseadas no que deixaremos no futuro;  nosso vida é um carrossel e a roda que impulsiona é o medo da chegada daquilo que chamamos de morte. Injustiçada. Perdoe-os, os homens tem a péssima prática do pré-conceito, de julgar antes do conhecimento, este é o nosso mundo, abarrotado de sábios que nunca de fato subiram ao monte para ver o sol nascendo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Quem disse que sou só

Quem disse que sou só? De só, somente este meu jeito, que o mundo pinta e os critícos da arte da vida julgam. Não sou só, tenho a mim. E comigo sou tudo que preciso. Se meu sorriso apresentar dor é porque no fundo eu sou viajante das lembranças de um passado. Extraia de mim o que quiser, pois eu posso multifacetar-me, vislumbrar-te, mas por dentro eu sou eu. Julgo, me oponho, descordo, torço, sorrio, mas por fora sou o que você faz de mim em seus preceitos ou preconceitos. E a pedra que me acertou expondo meus pecados, atirada por um pecador, doeu no momento, mas ao contrario de todos, já aceitei minha condição de pecador, se para os homens existe pecado, estou incluso nesta lista, afinal faço parte de uma lista que inclui a todos, e é só então que, por um momento me sinto parte de algo coletivo. E daí se não tenho fé? Vou para o mesmo caminho e se eu não for, acredite, foi escolha minha. Não precisa me aceitar, nem entender ou respeitar, afinal a única diferença que a opinião alheia faz na minha vida é: se vou gargalhar ou ficar entediado.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Suposta certeza

Tão distantes almejamos o horizonte. Longe alojamos nossos planos. Esquecemos por um momento o agora. Mas que diferença faz se as juras eram eternas? Do nosso laço por algum descuido alguém pisou na ponta e desfez os traços. Sem nenhuma afirmação estamos presos a nossas dúvidas. Se eu sabia quem era, hoje só vejo o naufrago, e na proa continuo esperando o fundo do oceano me estender os braços. Tão firme foi o chão em que pisei, traiçoeiro caminho que em um piscar de olho fez do duro concreto, um piso movediço. A certeza furtiva, palavra indefinida, classificada entre mitos e lendas. E tentei refazer minha vida, buscar alternativas, mas só me sobrou os rascunhos, porque as folhas principais já eram seus capítulos. Vejo nas árvores o seu abraço, sinto no vento o seu perfume, nas crianças sua inocência e na solidão o seu amor queimando para manter a lareira. E esse poço no peito me mostra como sua vida completava o meu vazio e me faz perguntar: Como eu vivia antes de viver consigo? Eu virei as costas, você pegou seu barco e zarpou. Talvez neste meio tempo percebestes o tamanho do seu erro, deu ouvido aos seus medos, contemplou os seus receios e como prevenção resolveu partir, porque seus problemas já eram demais para ainda ter que suportar os meus. Te vi ao longe, poderia ter acenado e lhe apresentado motivos para ficar, mas no fundo eu sabia que tinha problemas demais e que você merecia sossego. Então sentei no cais e quando o sol engoliu seu barco me coloquei a chorar. Mas o que são algumas gotas para o mar, ainda mais que já são salgadas e ele nem se dará ao trabalho de salgar? Fui ínfimo até nesta hora. E me contento com notícias suas por outros meios. E sei que devo caminhar, então caminharei, mas quando eu desistir de manter as aparências, quando cansar de ser covarde, vou lhe procurar e ofegante de cansaço lhe direi: “Você esqueceu alguma coisa antes de partir, de avisar meu coração que ele não deveria ir”.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Conselho

Ei garota, caminhando tão sozinha nesta estrada, jurando ser feliz neste mundo tão incerto. Intrépida na solidão. Forte na tempestade. Dizendo aos ventos que és feliz, enquanto a brisa lhe contradiz por dentro. Na selva de seus sentimentos quem adentra conhece o brejo da solidão. E quando ri disfarçado, sabe que no fundo desponta o gume de uma faca.
Então chore garota, agora é a hora. Não precisa ser forte o tempo todo, mostre ao mundo suas dores. E quando vir a calhar, sorria. Mostre a quem estiver na plateia o convite para o seu coração. Singelo, honesto, que vez ou outra amargura da dor.
 Seja forte. Quantas vezes caístes e mesmo sem apoio fez da vontade sua mão amiga? Ouça o vento, sinta a chuva, mas não deixe que o calor intenso faça de ti prisioneira de si mesma. Veja o calor como a presença do sol e do sol a presença da vida. E chore quando lhe der vontade. Liberte-se enquanto pode.
Ei garota, tão bela neste mundo tão horrendo, semeando flores pelas ruas grosseiramente escuras. Continue. Porque quem vê as plantas de canto se apresentando de forma tímida, no fundo sente um alivio ao presenciar o alojamento da esperança.
Suspire. E quando cansar sente-se. Nada lhe obriga a viver correndo. A vida não é uma obrigação. Entenda: quem deve almejar a sua felicidade, em primeiro lugar, deve ser você mesma. Faça pelos outros, jamais espere deles. Então de suas costas retire a montanha.
Tire o escudo. Todos somos vulneráveis. Permita o abraço, sinta o momento. E mesmo que pareça um segundo, durou a eternidade. Então garota, ame, mas ame com todas as suas forças. Sinceramente torço para que haja reciprocidade. Pois nada melhor neste mundo do que amar e ser amada.

Ei garota, teu sorriso abrange a relevância. Então sorria. E quando perguntarem por você, todos se lembrarão do belo coração ao invés do corpo que o resguarda.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Meu nome



Herança por ser o primeiro homem, certificada assim na certidão de nascimento. Homenagem que eu não pedi para prestar. Fui obrigado e moldado a aceitar. Levando o fardo de que, mesmo que eu me esforce para esquecer eu carrego uma lembrança na minha identidade. Para os moralistas que se colocam em um pedestal de razão e que gostam de dizer “Que absurdo, ele trabalhou a vida toda para alimentá-lo”. Eu digo: “Comida alimenta o corpo, mas não enriquece a alma”. É necessário mais do que isso para se formar um caráter. Quando busquei algo para saciar a sede da alma, fiquei horrorizado e me recusei a seguir os mesmos caminhos. Mesmo não sendo um julgador eu era apenas uma criança buscando a quem me espelhar, foi então eu comecei a ver monstros no reflexo. E nem para no nome eu ser poupado, até nisso carreguei o azar, além de não ter exemplos fui por diversas vezes motivo de piadas. Foi difícil. Mas confesso que tive uma heroína, alguém que me amparava. Uma verdadeira rainha. O problema é que vez ou outro ela caia a chorar. Eu pelo que via das histórias e fábulas, sempre pensei que plebeu não podia fazer majestade chorar. Mas ele fazia. Nem de longe, nem ao longo do horizonte, alguém tão isento de empatia poderia ferir o coração tão nobre quanto o dela. E eu sofria junto. E ainda sofro quando me pego a lembrar. Na busca pela base fundamental do meu vocabulário me esquivei de aprender com alguém que tinha como palavras prediletas palavrões da pior espécie. E não ouse dizer que exagero, ou achar que compreende o que estou dizendo, porque dissertar estas linhas ainda é vago demais para explicar o antigo cotidiano. O ambiente era hostil, nem mesmo o mais luxuoso recanto era o suficiente para proporcionar conforto em um ambiente compartilhado com tal pessoa. Então me retirava, sorrateiramente, me enfiava no quarto e lá só pedia em silêncio para que não fosse mais um dia de implicâncias. Egoísta. Não tem como não lembrar rotineiramente de tudo isso, se pelo menos uma vez ao dia eu escuto meu nome. E sinceramente eu tento conceder-lhe perdão, mas quando em uma distração inocente as lembranças batem a porta, o meu coração entra em erupção e a raiva sai pela boca, minhas mãos se descontrolam e disparam socos contra o travesseiro. Então dúvida eterna recaí sobre minha cabeça: Como alguém pode ser assim? Analisei a frio os seus caminhos para que possa tomar uma direção oposta. Eu digo sim que teve algo bom. Um exemplo perfeito me foi dado. O exemplo de como não quero ser no futuro. Esta é só a parte rasa, a prévia de meus traumas. Não há necessidade de se falar mais, porque tenho certeza que nas primeiras linhas já consegui identificação de milhares. E quando me perguntam: Junior por conta do seu pai? Eu respondo: Não! Por conta da minha mãe que iludida teve esperança de que alguém possa honrar um nome que já está manchado.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Retrato de quem fui um dia

Estou longe do caminho que tracei um dia. Longe da habitação casual de meus sorrisos cheios de vigores sinceros. Antes um livro vazio. Hoje as escritas de erros e problemas acerca da vida, os principais capítulos. E as alegrias são pequenas notas de agradecimentos do autor confuso. Hoje entendo o quanto aprendi, mesmo que para isso a dor tenha sido fundamental no processo. Processo perdido pelo meu coração, um mal advogado, sempre tomado pela emoção e abandonando o caso. Irônico como isso ainda me faz sorrir. Porque a frieza racional que me toma, nas raras vezes que cede espaço para a emoção, me torna mais capaz de resgatar o que fui. O que eu fui? Diferente do que sou. Pré-moldado, com boas intenções, aliado da esperança. Sorridente por vocação. Ingênuo o suficiente para esperar boas ações de todo mundo. O bastante para perdoar quem quer que fosse. Entendendo do mundo. Hipócrita a ponto de cobrar amor do próximo sem ao menos tomar conhecimento que faltava amor a mim próprio.
Procurando exemplos para explicar a ocasião. Uma criança sabe que apanha porque é mais fraca, mesmo não entendendo os motivos. Eu sou uma criança perto da solidão. Vi o quanto o mundo é repulsivo; que todos são bons apenas quando se enquadram em nossos interesses. Conheci a ganância que desfruta vantagem até mesmo do amor. E este meu ninho desatino de desembaraços paralelos que me levam a loucura quando elevo meu senso crítico. Os exacerbados tropeços em pedras ínfimas que devido ao erro se tornaram rochas maciças difíceis de quebrar, paradigmas torturantes de minha própria cabeça, que desviam o caminho em direção ao sol.

A ponto de ser hoje a incógnita da minha consciência, ao alcançar o estágio: Quem sou, se é de lágrimas que carrego a vida? A correnteza forte que devasta tudo em minha volta, atracando meu navio na solitária ilha do medo, do trauma incerto e rotineiro. Desesperadamente tentando fazer do fio de esperança uma corda para fugir deste local escuro e sutilmente hostil. Me resumo como se estivesse em um caso de amor com a vida, meu medo maior e partir sem nunca tê-la feito gozar de verdade.