quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Cigarro

Às vezes eu me pergunto: O que as pessoas pensam enquanto fumam um cigarro? Por que fumam cigarros? Algo que de diversas formas carrega anúncios de contra-indicação, a morte anunciada. Observo atento enquanto o papel se desfaz em cinzas, as bochechas inflam e superficialmente não entendo a lógica deste movimento. Vejo o corpo inerte, parado inalando as toxinas, enquanto apreciam distraidamente o horizonte. Milhões de coisas na cabeça. O olhar distante é o detalhe significativo. Neste momento está o sentido do fumo, o precioso momento da revisão da própria vida, a calma da nicotina em unção com o tempo livre. Pouco tempo por sinal, mas certas coisas são resumidas em minutos. Uma linha uniforme, que a embalagem afirma conter centenas de produtos químicos, com fotos assustadoras, mas que por outro lado contém grandes reflexões e em dados momentos conversas agradáveis com quem compartilha do mesmo vício. O desespero do pulmão em se livrar da apneia e as partículas que ficam impregnadas escurecendo a pele que antes refletia o ar puro. Cigarros. Droga lícita, pode causar câncer. Mas afinal o que não daria câncer nestes tempos modernos? A humanidade defasada de empatia causa câncer. E o tempo de exílio, aquele em qual o vício comanda o tempo e exige alguns momentos para que se dedique a ele, em troca proporciona uma conversa franca com a vida. Vejo, da varanda, o fumódromo ocupado pelo corpo, mas não pela alma, cada tragada e vai se esgotando a ampulheta. Talvez seja a fuga, o momento de dispersão dos compromissos de trabalho, uma desculpa convincente para se afastar das responsabilidades. Ou o desespero de mandar para dentro algo que preencha o vazio, mesmo que faça mal, sentir-se acompanhado por alguma coisa, fugir por um segundo da solidão deste mundo povoado de corpos sem vida. Quando o vento leva a fumaça para longe, leva um pouco do que já foi seu, algo que já adentrou seu corpo e diferente de muitos sentiu o seu interior, então o pensamento vai junto com a fumaça que se dissipa ao longo do caminho. Enquanto o cigarro vai desaparecendo nas pontas dos dedos. Mais uma tragada. Cof! Cof! Está ficando difícil fumar com tanta naturalidade, o corpo já não tem a mesma resistência, a garganta começa a reagir com violência. A vida está passando, mas o maço está sempre lá, no bolso, vez ou outro se esquece o isqueiro, olha para o lado e pergunta: “Tem fogo?”. Pronto, cigarro aceso, muita das vezes este é o único diálogo. Novamente o horizonte, e quando esta quase se convencendo de que lá é o lugar para se estar, o filtro demonstra que acabou o tempo, não há mais nada o que pensar. A cura para a ansiedade, raiva, estresse ou só uma diversão de adolescente. Quem sabe só uma obsolescência de um mercado bilionário. Quando recosta-se na parede e lentamente o corpo desliza para que possa se acomodar, ao fim senta-se no chão e quando bate a solidão, a angústia repentina, depressão, a fumaça toma conta do ambiente. A abstinência do corpo, o desejo insano de se tragar, lutar com o próprio desejo, chorar o desespero, o corpo exigindo uma conversa franca consigo mesmo. E as virtudes tão sólidas que nem de perto é o foco, de longe julgam um fumante pelo que ele expressa por fora. E perco horas imaginando o motivo da primeira tragada da vida. Qual foi a revolta? Quem convenceu a aderir esta idéia? Talvez, quem sabe, um ombro amigo nesta hora fosse a melhor droga. E os pés ansiosos, martelando o chão lentamente vão se cessando enquanto o cigarro vai esgotando-se, o respirar aliviado e o filtro – que não tem mais utilidade – é arremessado. Acabou mais um momento de reflexão e o tempo de leitura deste texto foi o suficiente para exaurir mais um cigarro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário