segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Tarde demais

Tarde demais para repensar. Recomeçar. Reconciliar. É tarde, frase típica dos incertos. De quem não sabe se salta do muro. O problema é que de um lado tem um cachorro feroz e do outro um poço profundo. Algumas vezes é compreensível se manter no meio do muro. Ainda sim é tarde, para tomar decisões precavidas, para remediar. Tarde para ser jovem eternamente. É tarde porque eu acho que é tarde. Acho isso porque ainda estou em cima do muro, fiquei tanto tempo aqui que se formou o poço e a casa foi construída e como consequência, colocaram um cachorro para fazer a segurança. Não notei o tempo passando. Não notei tantas coisas, fui refratário ao que me diziam, ignorei os conselhos. É tarde, formei um casulo, mas nunca ouve metamorfose. Talvez porque a solidão do local me proporcionava um bem estar que somente eu entendia. Aquela questão de me distanciar do mundo, da sentir raiva, medo, empatia pelas pessoas. Querer ser sozinho, condenar a sociedade, não me enquadrar aos seus padrões. O medo constante de me tornar mais um uniformizado, com rotina fixa, padronizado ao sistema sujo que deseja fazer de você uma máquina, te limitando o pensamento. Proporcionando luxo em troca de silêncio. É tarde para amar, principalmente após um amor machucado, com memórias lindas, mas desfecho inexplicável. É tarde para entender o porquê deu errado. Alguns momentos com o cantar dos pássaros bate o isolamento, o vazio, o típico vazio existencial, oriundo de perguntas simples, mas sem respostas plausíveis. O que estamos fazendo aqui? Só então se percebe que é tarde; tarde para abraçar a esperança, que a falta de costume ou a criação prévia não nos permite demonstrar afeto. Querer dizer o quanto ama alguém, mas não se tem coragem, a falta de exemplos durante a vida nos limita ao lixo silencioso que somos. Simples gestos que nosso corpo o induz ao processo, mas nossa mente bloqueia os movimentos. O quanto já não foi perdido por isso? É tarde para correr atrás desses prejuízos. Olhar no relógio e os ponteiros marcam meio-dia, uma hora e assim sucessivamente, é angustiante. Parece mais fácil deixar para depois, ter certeza nos sonhos que amanhã tudo será realizado. Ou simplesmente só sonhar, essa é a meta dos mais fracos. Por outro lado se todos os sonhos se realizassem, qual seria a nossa desculpa para os lamentos? De que valeria a luta diária? Pensando bem, acho que sonhar é só para preencher as páginas do fracasso, ou uma meta utópica para que caminhemos a vida toda atrás de algo, só para no fim dizer “eu nunca desisti dos meus sonhos”. É tarde para derramar essa lágrima, já passou. Tarde para brincar de desenhar. Tarde para sorrir com alguém. Para mim tudo é tarde, já que estou limitado ao muro. E as questões que chegam a mim eu as enquadro no meio termo. Em meio aos devaneios acredito que talvez compense contrair raiva derivada da mordida do cachorro, eu seria apenas mais um louco no mundo vasto deles. Ou então adentrar ao poço, não estranharia a solidão. Mas não passam de devaneios, ainda estou no muro. Que muro é esse que não divide somente as casas? Que me divide à dúvida? É tarde para voltar atrás. Tarde para voltar atrás das minhas mágoas; para perdoar. Tarde para recolher os frutos das árvores plantadas. Para terminar a obra de arte. Tarde para bater minha mão no poste e gritar meu nome, salvei o mundo. É tarde porque sempre é tarde, tendo em vista que somos limitados ao tempo e o mesmo nunca para de correr.

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