Sente-se aqui e chore comigo pela
última vez. Depois me deixe sozinho, como tem que ser, porque além das lágrimas compartilhadas eu preciso sofrer sozinho, morrer aos poucos por dentro e aceitar
a minha condição solitária.
Está frio, mas estava frio o tempo
todo, só agora eu percebi como é vazio o espaço em que só eu ocupo. Como eu pude
me arriscar a pensar que tinha uma vida, quando tudo que eu tinha era você? A falta
exorbitante que seu perfume faz; seu sorriso atrelado ao meu. Então eu percebi que
neste tempo todo eu nunca estive bem. Porque o sorriso que meu rosto expunha de
nada valia com as correntes das lembranças enroscadas aos meus pés.
Quando a noite chega, o escuro
ressalta a saudade que se oculta durante o dia. Enfim, nunca antes o cheiro do
alvejante me incomodou tanto, já havia me acostumado com seu perfume adormecido
em minhas roupas. Para ser sincero, cansei das minhas mentiras desferidas a mim
mesmo, de tropeçar vez ou outra nas minhas ilusões dando de cara com a
realidade; em pensar que tudo vai ficar bem. Penso em abandonar a desolação que
me joga aos cantos e encharca os meus olhos, penso em parar de me antecipar ao
tempo brincando com as variáveis e me ludibriando com finais felizes. Esqueço
um pouco de mim em determinadas circunstâncias, preciso deixar de ser eu para
que em algum momento eu seja algo melhor do que sou; fantasiar-me de herói da
vida, guerreiro, vencedor das dificuldades. Mentira! Está tudo debaixo do
tapete, - Não um tapete Persa - um tapete qualquer imundo, onde as linhas do meu
destino formam a estampa.
Que irônico, eu aqui me lamentado
enquanto podia estar ai correndo te almejando à volta. Dizendo que nunca
esqueci. Pensando bem, eu sou covarde, prefiro resguardar a dor ao passar
vexame, me saciar com a possibilidade negativa, justificando assim a minha
falta de iniciativa. Quando acabou não foi colocado um ponto final, foram
adicionadas as reticências, me atormentado já que estava passível de interpretações.
Já não reconheço o horizonte em que o sol se escondia, já não ando bem pelos
caminhos da minha vida. Perdi minha bússola. Ando sem rumo.
Não vou prolongar o assunto, só
eu sei as feridas que não cicatrizam; o coração que não para de bater, – e por
sinal bate sempre na mesma tecla – só eu sei como são longos os meus dias, e se
um dia, quem sabe, eu te encontrar por aí, vou sorrir para que não sobre mais
nenhuma duvida entre os nossos rumores.
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