Quando cresci, deixei de ser
o que o mundo reservou para mim, puro. Larguei no meio do caminho a bagagem
infantil para abraçar a dor de ser maduro. Poucos entendem que o maduro beira a
podridão. Aprendi a interpretar e vivenciar angústia. Responsabilizei-me a ser
responsável. Ouvi constantemente a voz na minha cabeça “Você precisa fazer
alguma coisa da vida” E pensava comigo, “mas eu já faço, eu sou feliz”.
Abandonei o sou feliz para me enquadrar na vida que muitos julgam “adulta”.
Parece ironia ou cinismo, ser adulto é como afundar-se na areia movediça, você
sabe que está padecendo, mas ainda sustenta aquele mundo para não ser alvo de
criticas. Vez o outra bate uma saudade sem base de fundamentos de quando eu era
só mais um pivete. Sabe? Daquelas saudades de correr descalço no campo de
futebol, voltar todo sujo no fim da tarde. Fazer desenhos tão mal feitos e
depois ir correndo apresentar aos pais, que sempre diziam que estavam perfeitos.
Aquela falta que faz acordar e ir pra escola, rever os amigos, bater figurinha,
provocar as meninas. Esfolar a tampa do dedão. Puta que pariu, faz falta
demais. Perdoe o palavrão, mas é que nenhuma palavra da norma culta seria o
suficiente para expressar o quanto foi perfeita aquela época. E quer saber? Se
um dia desses eu encontrasse um gênio da lâmpada, pediria sem pestanejar para
que pudesse reviver pelo menos cinco minutos daqueles anos de ouro. Memorar
aqueles sorrisos sinceros. Brigar e após 5 minutos trocar gentilezas. Se
desentender com seus irmãos, mas nunca deixar que ninguém o maltratasse. Se me
criticassem por não pedir riqueza, sorriria ironicamente por entender que eles
ainda são ingênuos demais para entender o verdadeiro valor das coisas. Saudade
violenta de ser dono do mundo e não seu escravo.
Hoje carrego o ar monótono
da rotina, trabalhar, fazer o que não gosto porque o dinheiro exige que você
dedique sua vida a ele. É quase que um “Não faça planos, você é pobre, ganhe
dinheiro antes vendendo sua vida”. Tem horas que odeio o dinheiro, por alguns
instantes o culpo por nos fazer amadurecer. Maldita mania do ser humano,
procurar culpados para aliviar nem que seja pelo menos um pouco o erro grotesco
que cometemos acerca da vida. É mais fácil para se conformar depois.
Passou rápido demais, talvez
pelo meu esforço descomunal para crescer logo, tomar cerveja, sair de casa,
andar na montanha-russa. Desejei crescer para ser uma criança independente,
inocente demais, nem ao menos sabia que essa opção não estava em pauta nas
reuniões da vida. Hoje vejo a longa estrada a percorrer, quando mais jovem eu
pintava a estrada, formulava-a da forma que bem entendia. Eu era médico,
bombeiro, polícia, astronauta. Até super-herói. O tempo não perdoa, tentamos
acompanhar correndo, mas quando se cansa ele se aproveita.
As vezes olho minha mãe
sentada no sofá, abatida após uma manhã de serviço, logo após ouço o carrinho
de sorvete passando na rua, solto um riso de canto, não posso pedir dois reais
a ela para comprar um, pelo menos não com aquele ar inocente de uma criança
totalmente dependente da finança dos pais. Imagino que sigo o mesmo caminho que
eles, deixando minha vida passar, esperando o trem do amanhã. Morro de medo de
que meus filhos sejam que nem eu, que vendam seus sonhos por uma entrada nesse
mundo perverso que só lhe paga com solidão.
Ê infância, como eu gostaria
de te encontrar por ai, te devo tantos abraços, hoje sinto que você me dizia o
quanto faria falta na minha vida. Devo-te a gratidão e de lhe dizer quanta
nostalgia você me causou. Se eu sorri tanto na sua época, hoje choro por ter
passado dela. Hoje penso que talvez eu tenha crescido para entender o valor da
perda, agora eu entendo, e imploro para que possa voltar no tempo.
Quando cresci conheci o
sofrimento. Só depois de crescer conheci as coisas fétidas do mundo. A infância
era a diversão, depois são só julgamentos, no banco dos réus estamos nós, como
juiz nossa consciência. Dói aceitar que passou, dói mais ainda saber que não
voltará, mas quem teve agradeça, porque infância é só uma e é eterna até o fim
da vida.
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