Estou sentado no muro que
divide as rodovias. Calor escaldante. Já são quase meio-dia e eu reparo nessa
longa estrada vazia. Nenhum carro indo ou vindo. Sinto falta do trânsito
caótico. Das pessoas no celular olhando apressadas para o relógio como se isso
apressasse o tempo. Agora só ouço o vento. Quando chega a noite sento na beira
da rodovia acendo a fogueira e queimo alguns papéis que estão em volta. Não
conto história, até porque não tem ninguém comigo. Penso duas vezes antes de
entrar na cidade, lá o vento é frio e as lembranças são violentas como as
gangues de rua que não estão mais presentes. Entro devagar observando os
banners descolados e o céu limpo, sem aviões ou pássaros. Caminho na calçada
abraçado a mim mesmo para me proteger do frio. Alguns panfletos com rostos
felizes e números embaixo vão dançando pelo chão. Chego a um escritório, vejo
documentos revirados nas mesas e de relance avisto um computador ligado.
Percebo que é um e-mail aberto, não reparei no nome, mas era um e-mail amoroso,
com dizeres de saudades, de amor eterno. Fecho a tela como se quisesse
preservar a privacidade de não sei quem. Vou embora até encontrar um cinema,
pela primeira vez não precisei escolher a poltrona, era livre até para sentar
no chão, passava um filme mudo, em preto e branco, só depois de horas percebi
que se tratava da minha infância. Chorei. Os restos de pipoca e o chão que
grudava os pés devido ao refrigerante velho que ali caiu aumentaram mais ainda
a sensação de solidão que o ambiente proporcionava. Sai da sala com uma imensa
nostalgia. Às vezes subo ao topo de alguns prédios, penso em me jogar, deixar a
cidade mais vazia ainda, só então lembro que não tem ninguém ali, ninguém para
me dizer: “não pule, amamos você”. Então levanto desolado e percebo a derrota
que sofri por não conseguir fazer algo tão fácil. Desço os andares de escada.
Não tenho pressa, não tenho aonde ir, faço meu próprio tempo. Ando distraído,
não preciso me preocupar em esbarrar em ninguém; de repente, tropeço e começo a
rir histericamente, sem motivos, só pela vontade exorbitante que bateu aquele
momento. Rio até doer a barriga e a sensação de vazio bater de novo e me fazer
se questionar sobre os risos. Fico ali mesmo, no chão. Observo chegar a noite e
nem os ratos chegam perto, até porque eles não existem mais. As estrelas ainda
se encontram lá, brilham sem sentido a não ser que eu faça algum sentido.
Adormeceria ali mesmo se o frio permitisse. Procuro um abrigo, encontro uma
casa de portas abertas. Que ironia. Era a minha própria casa. O mesmo cheiro,
os móveis empoeirados e a vaga lembrança das vozes. Minha cama desconfortável e
meu cobertor curto que cobria ou meus pés ou meus ombros. Eu ainda acordo me
perguntando por que eu insisto em me manter vivo, um mundo sem ninguém, vazio.
Talvez eu carregue o peso da culpa por ter feito dele isso. Uma tosse seca
invade meu peito, procuro a farmácia mais perto, tomo vários remédios para
diversos fins; solto um sorriso de canto por não precisar de receita. Não curou
a tosse, mas me adicionou náuseas, não sabia se era pelo remédio errado ou pelo fato deles estarem vencidos. Onde estavam todos? Eu tinha amigos,
família, a cidade era movimentada, alguns sorriam outros passavam apressados,
mas estavam ali. As lembranças são vagas, mas me lembro de que um a um foram abandonando a cidade, como quem perde o interesse pela rotina e as coisas que
julgavam fartas. Agora estou sozinho, só sobrou a mim. Fico no meio fio
imaginando um ônibus passar, um táxi estacionar, as pessoas se
cumprimentado. Vejo o tempo voar e eu
ali sem opções de felicidade, mesmo com aquilo tudo só para mim. Todos os
textos que pensei em escrever não significavam mais nada, os abraços que quis
dar, os planos impossíveis. Folheei todas as minhas cartas sem remetente,
escritas para alguém, direcionadas para ninguém. Sem pessoas nada fazia sentindo.
Não sentir raiva de ninguém, não amar ninguém, não ter com quem compartilhar
lágrimas. A cidade fantasma onde o único personagem era eu, e fica claro que
quando falo da cidade estou me referindo a minha própria pessoa, estou falando
do que sou por dentro; da minha alma. (Dario Junior)
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