terça-feira, 15 de outubro de 2013

Suicídio



A vista daqui de cima é diferente. Pela primeira vez tudo aparenta ser pequeno perto de você. Diferente de quando se está no solo com a dor interiorizada, essa dor que ridiculariza o ser, nos inferiorizando diante dos outros. A mesma dor que te levou a cobertura de onde está. Talvez seja por isso que muitos desistem do suicídio quando chegam aqui em cima, porque pela primeira vez na vida se sentem grande diante de algo. Sentar na beira e imaginar que o último caminho que fará será de lá de cima até o chão. Não dando tempo nem ao menos para memorar as melhores recordações. Todos que estão lá embaixo tratando a situação como espetáculo. Não se importam se vais pular ou não, só os interessa ver o desfecho, são ansiosos de plantão ansiando conhecer o final da trama. Não lhes interessa saber se você têm sonhos, filhos. Como foi seu dia ou se foi alguma vez feliz. Alguns cochicham entre si que quem comete tal ato é egoísta, que não pensa no sofrimento dos mais próximos, que gosta do drama por carência. Julgam ser saber nem o mínimo da dor que o esfaqueia todos os dias, que lhe traja com os mais míseros sentimentos. Julgam sem ao menos saber que o chão já semeou milhões de suas lágrimas. Tal dor que não seria exagero compará-la a mitologia de Prometeu. Estás no topo de um arranha céu esperando que seja puxado pelas mãos, ideia essa alimentada pela sua fé. Pensas em se livrar da vida por almejar um lugar sem tristeza; um paraíso de dádivas. Isento de dor. Cansou de se deitar em um bloco de concreto todos os dias e recostar a cabeça em um travesseiro de gelo, colecionando noites de insônia. Exausto de tomar café da manhã todos os dias com a depressão. Fartou-se da incompreensão de sua dor diante dos olhos alheios; de ter que demonstrar força todos os dias quando o que mais deseja é desabar em lágrimas, derramar-se nas mágoas. Entristece só de lembrar que entre todas as pessoas do mundo, nem sequer uma enxergou seu mundo desfacelando-se em chamas no fundo dos seus olhos, que as lágrimas nem de longe foram páreas para controlar o incêndio e partiram em retirada para longe das pálpebras. Esta lá em cima como ultima saída e por amar tanto a vida quer lhe poupar do sofrimento. Pode ser a última decisão ou mais uma entre as outras milhões. O recomeço ou a continuação do fim. Não vem ao caso o final, porque suicídio de verdade é quando se deixa de estar vivo mesmo estando presente na vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário