A vista daqui de cima é diferente. Pela primeira vez tudo aparenta ser
pequeno perto de você. Diferente de quando se está no solo com a dor
interiorizada, essa dor que ridiculariza o ser, nos inferiorizando diante dos
outros. A mesma dor que te levou a cobertura de onde está. Talvez seja por isso
que muitos desistem do suicídio quando chegam aqui em cima, porque pela
primeira vez na vida se sentem grande diante de algo. Sentar na beira e
imaginar que o último caminho que fará será de lá de cima até o chão. Não dando
tempo nem ao menos para memorar as melhores recordações. Todos que estão lá
embaixo tratando a situação como espetáculo. Não se importam se vais pular ou
não, só os interessa ver o desfecho, são ansiosos de plantão ansiando conhecer
o final da trama. Não lhes interessa saber se você têm sonhos, filhos. Como foi
seu dia ou se foi alguma vez feliz. Alguns cochicham entre si que quem comete
tal ato é egoísta, que não pensa no sofrimento dos mais próximos, que gosta do
drama por carência. Julgam ser saber nem o mínimo da dor que o esfaqueia todos
os dias, que lhe traja com os mais míseros sentimentos. Julgam sem ao menos
saber que o chão já semeou milhões de suas lágrimas. Tal dor que não seria
exagero compará-la a mitologia de Prometeu. Estás no topo de um arranha céu
esperando que seja puxado pelas mãos, ideia essa alimentada pela sua fé. Pensas
em se livrar da vida por almejar um lugar sem tristeza; um paraíso de dádivas. Isento
de dor. Cansou de se deitar em um bloco de concreto todos os dias e recostar a
cabeça em um travesseiro de gelo, colecionando noites de insônia. Exausto de
tomar café da manhã todos os dias com a depressão. Fartou-se da incompreensão
de sua dor diante dos olhos alheios; de ter que demonstrar força todos os dias
quando o que mais deseja é desabar em lágrimas, derramar-se nas mágoas.
Entristece só de lembrar que entre todas as pessoas do mundo, nem sequer uma
enxergou seu mundo desfacelando-se em chamas no fundo dos seus olhos, que as
lágrimas nem de longe foram páreas para controlar o incêndio e partiram em
retirada para longe das pálpebras. Esta lá em cima como ultima saída e por amar
tanto a vida quer lhe poupar do sofrimento. Pode ser a última decisão ou mais
uma entre as outras milhões. O recomeço ou a continuação do fim. Não vem ao
caso o final, porque suicídio de verdade é quando se deixa de estar vivo mesmo
estando presente na vida.terça-feira, 15 de outubro de 2013
Suicídio
A vista daqui de cima é diferente. Pela primeira vez tudo aparenta ser
pequeno perto de você. Diferente de quando se está no solo com a dor
interiorizada, essa dor que ridiculariza o ser, nos inferiorizando diante dos
outros. A mesma dor que te levou a cobertura de onde está. Talvez seja por isso
que muitos desistem do suicídio quando chegam aqui em cima, porque pela
primeira vez na vida se sentem grande diante de algo. Sentar na beira e
imaginar que o último caminho que fará será de lá de cima até o chão. Não dando
tempo nem ao menos para memorar as melhores recordações. Todos que estão lá
embaixo tratando a situação como espetáculo. Não se importam se vais pular ou
não, só os interessa ver o desfecho, são ansiosos de plantão ansiando conhecer
o final da trama. Não lhes interessa saber se você têm sonhos, filhos. Como foi
seu dia ou se foi alguma vez feliz. Alguns cochicham entre si que quem comete
tal ato é egoísta, que não pensa no sofrimento dos mais próximos, que gosta do
drama por carência. Julgam ser saber nem o mínimo da dor que o esfaqueia todos
os dias, que lhe traja com os mais míseros sentimentos. Julgam sem ao menos
saber que o chão já semeou milhões de suas lágrimas. Tal dor que não seria
exagero compará-la a mitologia de Prometeu. Estás no topo de um arranha céu
esperando que seja puxado pelas mãos, ideia essa alimentada pela sua fé. Pensas
em se livrar da vida por almejar um lugar sem tristeza; um paraíso de dádivas. Isento
de dor. Cansou de se deitar em um bloco de concreto todos os dias e recostar a
cabeça em um travesseiro de gelo, colecionando noites de insônia. Exausto de
tomar café da manhã todos os dias com a depressão. Fartou-se da incompreensão
de sua dor diante dos olhos alheios; de ter que demonstrar força todos os dias
quando o que mais deseja é desabar em lágrimas, derramar-se nas mágoas.
Entristece só de lembrar que entre todas as pessoas do mundo, nem sequer uma
enxergou seu mundo desfacelando-se em chamas no fundo dos seus olhos, que as
lágrimas nem de longe foram páreas para controlar o incêndio e partiram em
retirada para longe das pálpebras. Esta lá em cima como ultima saída e por amar
tanto a vida quer lhe poupar do sofrimento. Pode ser a última decisão ou mais
uma entre as outras milhões. O recomeço ou a continuação do fim. Não vem ao
caso o final, porque suicídio de verdade é quando se deixa de estar vivo mesmo
estando presente na vida.
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