sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Cemitério da saudade

Hoje fui ao cemitério. O cemitério das saudades. Sua entrada era chamativa, enfeitada com rosas, sorrisos e lágrimas. Seu subtítulo dizia que lá a nostalgia era garantida. O problema é que nós nunca sabemos quando iremos adentrar, quando se da conta já se está na entrada, sem caminho de volta. Um local sem indicações, cheio de armadilhas, qualquer hora pode cair em uma lembrança assustadora. Tudo, completamente tudo o que você viveu está ali enterrado, a música que toca ao fundo na verdade se mistura com as outras milhões que lhe trazem lembranças, melodias memoráveis e que chegam fundo nos sentimentos. Um típico cenário de garganta embargada. Os papéis ao chão são as cartas, os recados, fotografias. O vento frio mistura os perfumes e a cachoeira são os choros passados. As árvores são as raízes de onde seu coração já foi plantado. Quando menos se espera está com uma pá na mão desenterrando uma saudade, que sobe subitamente, te invade o peito, embarga a garganta e encharca os olhos. Deixando você disperso do mundo, trafegando pelas memórias. Anestesia-o com a nostalgia; faz-te odiar o presente. Os risos que soam de repente ao fundo das músicas, a sensação de um abraço apertado, são os fantasmas do necrotério. Tudo está ali. O primeiro "Eu te amo". O abraço materno. Os fins de semanas com os amigos. As perdas irreparáveis. As separações. As expectativas e os sonhos mais nobres. Sim, existe a saudade de sonhar, o mundo é um homicida dos sonhos. A saudade exorbitante da infância onde se encontra um dos poucos túmulos floridos. Quase tudo perfeito, mas suas dores são as mais penetrantes, poucos se dispõem a abri-las. Nossas vidas abastecem aquele cemitério. É possível morrer em vida ou morrer nas saudades. É inevitável. Todos têm histórias enterradas, que quando vem a tona desanda a desalinhar a sincronia dos sorrisos. Algumas vezes o desespero toma conta e a vontade resgatar e reviver aqueles momentos nos tira da linha da razão e faz com que os sentimentos tomem providência, ocasionando a procura de quem esteve conosco naqueles momentos. Somos filhos das lembranças, superprotegidos pela nossa mãe, a saudade. Tudo aquilo que deu a entender que se foi para os confins do esquecimento, a saudade guardou com o maior carinho.

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